
-Bom dia amigo!
-Opa!
-Saindo pro trabalho?
-Nada... chegando da noite...
-Foste bem então?!
-Antes fosse... a vida tem sido isso. Tempo bom quando o Bourbon era pra relaxar e naum para me cortar.
-Mas por que diz isso?
-Deixe quieto, você não gostaria de saber, e seu trem vai passar... ele sempre passa.
-Peço-lhe desculpas então, pois realmente o tempo me falta, mas vamos marcar um drink? Então poderemos falar-nos em paz.
-Disso eu duvido, mas poderemos sim, claro! Porque não? A vida permitindo e a morte faltando, tudo nós é permitido. Marcado então.
-Abraço então... fique bem.
-Abraço e bom serviço.
Por fim ele entra em seu apartamento e encontra aquela guimba de cigarro marcada de batom que ela deixou em sua ultima frase. Esse pequeno objeto fedorento pra ele é como se fosse a última flor que havia brotado da velha cerejeira. Ele sabe por que ainda guarda isso, mas não compreende. Deita na cama e sente a garganta já com o amargo seco da ressaca que se aproxima. Antes lhe era mais fácil chegar em casa no alge da embriaguez, porém hoje os bares não lhe permite mais ficar até o astro maior chegar. É então que começa sua trilha pelas ruas que são sua última morada.
No princípio do seu sono vem-lhe imagens dos remotos tempos de choro infantil e vontade pueríl. A nostalgia o carrega para o sonho.
Sempre sentimos saudades das dores do passado, pois no passado elas habitam. Quando a dor ainda faz moradia essa sim sempre será a pior. Pelo menos até o proximo corte ou até o proximo porre.


1 Devaneiro(s):
Hermógenes
Se, ao final desta existência,
Alguma ansiedade me restar
E conseguir me perturbar;
Se eu me debater aflito
No conflito, na discórdia...
Se ainda ocultar verdades
Para ocultar-me,
Para ofuscar-me com fantasias por mim criadas...
Se restar abatimento e revolta
Pelo que não consegui
Possuir, fazer, dizer e mesmo ser...
Se eu retiver um pouco mais
Do pouco que é necessário
E persistir indiferente ao grande pranto do mundo...
Se algum ressentimento,
Algum ferimento
Impedir-me do imenso alívio
Que é o irrestritamente perdoar,
E, mais ainda,
Se ainda não souber sinceramente orar
Por quem me agrediu e injustiçou...
Se continuar a mediocremente
Denunciar o cisco no olho do outro
Sem conseguir vencer a treva e a trave
Em meu próprio...
Se seguir protestando
Reclamando, contestando,
Exigindo que o mundo mude
Sem qualquer esforço para mudar eu...
Se, indigente da incondicional alegria interior,
Em queixas, ais e lamúrias,
Persistir e buscar consolo, conforto, simpatia
Para a minha ainda imperiosa angústia...
Se, ainda incapaz
para a beatitude das almas santas,
precisar dos prazeres medíocres que o mundo vende...
Se insistir ainda que o mundo silencie
Para que possa embeber-me de silêncio,
Sem saber realizá-lo em mim...
Se minha fortaleza e segurança
São ainda construídas com os materiais
Grosseiros e frágeis
Que o mundo empresta,
E eu neles ainda acredito...
Se, imprudente e cegamente,
Continuar desejando
Adquirir,
Multiplicar,
E reter
Valores, coisas, pessoas, posições, ideologias,
Na ânsia de ser feliz...
Se, ainda presa do grande embuste,
Insistir e persistir iludido
Com a importância que me dou...
Se, ao fim de meus dias,
Continuar
Sem escutar, sem entender, sem atender,
Sem realizar o Cristo, que,
Dentro de mim,
Eu Sou,
Terei me perdido na multidão abortada
Dos perdulários dos divinos talentos, Os talentos que a Vida
A todos confia,
E serei um fraco a mais,
Um traidor da própria vida,
Da Vida que investe em mim,
Que de mim espera
E que se vê frustrada
Diante de meu fim.
Se tudo isto acontecer
Terei parasitado a Vida
E inutilmente ocupado
O tempo
E o espaço
De Deus.
Terei meramente sido vencido
Pelo fim,
Sem ter atingido
Postar um comentário